“1993,o"meu1983".Eraumjovemde13anos,naquelanoitechuvosadeJulhode1993.EstavaindocomomeupaiparaabatalhafinalnoArruda.”
1993, o "meu 1983".
Era um jovem de 13 anos, naquela noite chuvosa de Julho de 1993. Estava indo com o meu pai para a batalha final no Arruda. 1 semana antes, tinha presenciado a derrota da primeira batalha para o Náutico, 1x0 com gol de Lau.
Fui ao jogo com as pupilas dilatadas, devido um exame de vista que havia feito à tarde. Minha mãe perguntou se eu iria ao jogo. Eu afirmei que iria, e que não ia perder a oportunidade perdida da final de 1990 (Minha mãe não me permitiu ir àquela decisão com o meu pai, pq eu estava com a garganta inflamada, e acompanhei do rádio).
Saindo de casa com o meu veho, por volta das 19h, passei na praça perto de casa, encontrei um amigo alvirrubro, que, junto com seus primos rubro-negros(todos com o rosto pintado de vermelho e branco), me disse: "Wagner, essa noite seremos campeões", eu olhei e continuei andando, calado.
Eis que chega a hora do jogo e o Santa Cruz precisa vencer o jogo, para forçar a prorrogação e tentar o título. O jogo, acirrado, me proporciona a primeira pancada. Nosso artilheiro, Washington, vai expulso por conta de uma entrada no zagueiro alvirrubro Lúcio Surubim.
O cenário, não só para mim, mas para todos nós tricolores, ficava ainda mais dramático. A metade alvirrubra do Arruda vibra... Fica em êxtase. Poucos minutos depois, vem uma chuva forte e, com o campo e a bola molhados, vem o lance da segunda pancada.
Falta na altura da meia-lua, na barra da Avenida Canal, em favor do Náutico. Paulo Leme cobra por cima da barreira, Marcelo Martelotte, tenta segurá-la, mas a pelota molhada o trai e passa a linha da meta. Gol do Náutico.
Naquele momento, via o título ainda mais distante. A festa do lado vermelho e branco é efusiva. Inicia-se o segundo tempo, com a torcida do Náutico gritando "É CAMPEÃO" e dando tchauzinho para nós. O tempo vai passando, o placar se mantendo e o Santa Cruz mal no jogo, cedendo espaços que poderiam decretar o fim de nossas possibilidades naquela decisão.
O Náutico levava perigo a cada descida. Eis que vai chegando o fim da partida. A torcida do Náutico em êxtase, comemorava o título de 1993. Aos poucos eu ia vendo o lado de nossa torcida se esvaziando a cada minuto.
Eis que numa escapada, o nosso meia Fernando entra na área, dribla Paraíba e empurra para o gol vazio, aos 38 minutos do segundo tempo.
Comemoramos aquele que até então era o gol de nossa honra, afinal não perderíamos o jogo, ao menos, com disse o meu velho "Pelo menos a gente não perde".
Pouco depois de vibrar com o empate, meu pai se vira para mim, ali nas sociais, e me chama para ir pra casa, afinal, o desfecho já estava desenhado, a festa seria deles e então fomos descendo os degraus, até que a gente chega no túnel de saída das sociais, que fica bem no meio do campo do Arruda, lá embaixo nas arquibancadas.
Meu pai estava um degrau abaixo de mim e já dobrava para entrar no túnel, foi quando vi Parreira, o zagueiro do Náutico falhar, na hora, gritei: "Peraí pai, vamos ver esse lance". Era a bola do gol de Célio. Ali debaixo, com a visão rente ao gramado(por conta da localização do tunel de saída) vi a bola viajar e morrer no canto direito da barra da Av. Canal.
Vi Paraíba se esticar com todo o desespero para tentar alcançar uma bola que morreria na bochecha da rede. Era o gol da virada, Subimos as arquibancadas novamente. Eu olhava o placar e lá estava:
SANTA 2 NÁUTICO 1
Daí, vem a prorrogação, e o time foi pura entrega dentro de campo. O Náutico, desesperado, tentava o gol, sem sucesso. Afinal, já estavam tomados pelo abatimento da virada, assim como de sua torcida, que havia silenciado já em nosso gol de empate.
Foi questão de tempo, o Santa segurou com a alma de todos nós tricolores que estávamos ali, naquela noite. Ao trilar do apito, eu comemorava minha primeira decisão, meu primeiro título in loco. Vibrava junto com meu pai e com os demais nas sociais.
Voltei pra casa em um Expresso Torcedor abarrotado de gente. Enquanto festejavamos dentro do ônibus, vi os torcedores do Náutico, desolados andando pela rua, voltando a pé pra casa. Cheguei em casa a 1h da manhã, molhado pela chuva e agraciado com a glória daquele título.
É um momento ímpar para mim, inesquecível.
No dia do título…
Recife, 22 de Julho de 1993
Wagner Souza de Lima
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