“ParaquemnascetricoloremPernambuco,ofutebolnãoéumaescolha;éumpactodesangue,umaherançasagradapassadadepaiparafilho.”
Para quem nasce tricolor em Pernambuco, o futebol não é uma escolha; é um pacto de sangue, uma herança sagrada passada de pai para filho. Minha história com o Santa Cruz Futebol Clube começou a ser escrita na voz do meu pai. Lembro-me, como se fosse hoje, do brilho nos olhos dele ao me contar sobre a mística da nossa torcida — a mais apaixonada do Brasil, capaz de carregar o time nos braços quando faltavam forças no campo. Cresci embalado por narrativas heroicas, especialmente daquele ano mágico em que o lendário Givanildo Oliveira desfilava sua classe no elenco. Meu pai batia no peito e dizia que jogávamos de igual para igual com qualquer gigante da Série A, e que aquele título era para ter sido nosso.Aquelas palavras acendiam um fogo no meu peito. Tudo o que eu mais queria era crescer logo para sentir o concreto tremer e pisar no santuário tricolor: o Mundão do Arruda. Curiosamente, o destino quis que o meu batismo naquele templo não fosse com as três cores do Coral. Em 1993, as eliminatórias da Copa do Mundo trouxeram o Brasil para Recife. O Arruda pulsava, lotado, na goleada de 6 a 0 sobre a Bolívia. Mas ali, vendo a imensidão daquele estádio, meu coração acelerou não pela seleção, mas pelo que o Arruda representava. Dali em diante, virou febre, uma obsessão boa. Eu precisava estar lá em cada jogo, em cada hino cantado a plenos pulmões.Duas batalhas ficaram cravadas na minha alma. A primeira foi um Clássico das Multidões inesquecível. O Sport vinha soberbo, ostentando uma sequência absurda e histórica de 49 jogos de invencibilidade no Campeonato Pernambucano. Mas o Santa Cruz é o time do impossível. Em um jogo tenso, daqueles de roer as unhas no Arruda, vencemos por 1 a 0, quebramos aquela marca lendária, calamos o rival e derrubamos a banca deles. A outra memória marcante foi o épico acesso à Série A em 1999, uma apoteose tricolor sob o comando do eterno Nereu Pinheiro. O Arruda era um mar de gente, uma catarse que só quem é Santa consegue explicar.O futebol, porém, guarda ironias que nos moldam. Foi exatamente naquele ano de 1993, o mesmo do meu batismo nas arquibancadas do Arruda, que decidi buscar o sonho de ser jogador profissional. Fui cheio de esperança fazer os testes no Santa Cruz, o clube da minha vida, mas as portas não se abriram para mim. Sem desistir, o destino me levou para o maior rival, e acabei ingressando na base do Sport. Mesmo vestindo a camisa rubro-negra e dando o meu melhor nos treinos, eu vivia uma dualidade silenciosa: lá no fundo, eu ainda nutria o sonho vivo de um dia vestir o manto coral e jogar pelo Santa, o verdadeiro clube do meu coração. Foi na Ilha do Retiro que o meu caminho cruzou com o de Nereu Pinheiro.Nereu tinha um olho clínico fantástico para a base e foi o grande responsável por descobrir e lapidar talentos gigantescos naquela época. O maior exemplo disso foi o Juninho Pernambucano. Eu tive o privilégio inesquecível de viver os bastidores da Ilha do Retiro naquele momento e ver o Juninho, ainda no sub-17, subir com personalidade para o profissional enquanto eu jogava na categoria sub-15.Sob o olhar atento e a sabedoria daquele mestre, eu sentia que o meu futebol também ganhava asas. Nereu acreditava em mim, extraía o meu melhor e, com ele me lapidando, eu sabia que poderia ter ido muito longe no esporte, talvez alcançando os grandes palcos do futebol. Mas o destino me deu uma rasteira dolorosa. Uma grave lesão me afastou dos gramados. Foram meses intermináveis de molho, dores físicas e um desgaste emocional gigante ao ver o tempo passar longe da bola. Diante daquela provação tão dura, a dor venceu o sonho, e acabei desistindo da carreira no futebol.Não cheguei a me profissionalizar, mas guardo o orgulho de ter sido moldado por um dos maiores operários do nosso futebol e de ter testemunhado o surgimento de lendas como Juninho. E o mais bonito de tudo é que, mesmo tendo jogado no rival na juventude, o meu coração nunca mudou de lado. O amor pelo Santa Cruz, plantado pelo meu pai nas histórias da infância e batizado nas arquibancadas do Arruda, permanece intacto. É o tipo de paixão que nenhuma lesão, nenhuma frustração e nenhuma reviravolta da vida consegue apagar. Sou, fomos e sempre seremos Santa, contra tudo e contra todos.
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