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16/06

Sangue, suor e lágrimas

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Sangue, suor e lágrimas
foto: Foto: Antônio Melcop

Por Samarone Lima

Amigos corais, não vou falar da vitória de ontem, dos três pontos, do salto na tabela. Isso cabe aos jornalistas, aos comentaristas, aos profissionais da Imprensa. 

Sou um profissional da crônica. Então, não me peçam a verdade, análise de jogadas, comentários sobre atuação de qualquer jogador coral. É perda de tempo. Não posso escrever jornalisticamente sobre o Santa Cruz, porque seria o mais parcial dos jornalistas. Minha alma pende sempre para o lado das três cores, em qualquer situação. 

Pois bem. Vamos ao personagem de ontem e de hoje. 

No dia seguinte a qualquer jogo, o senhor L.D me liga. Não preciso nem olhar no relógio, é sempre às sete horas da manhã. Ele já tomou banho, café, levou os meninos na escola, deu esporro nos meninos, xingou eventuais barbeiros, ouviu notícias nas rádios sobre o Mais Querido, voltou pra casa, sentou naquela Cadeira do Papai, puxou o celular e me ligou:

“E então?”

É sempre assim. Eu já fico na rede, esperando, com uma garrafa de café ao lado.

 Quando penso em dizer algo, ele começar a falar sobre a partida, os detalhes, os lances, depois faz um prognóstico do campeonato, analisa todos os outros resultados da rodada, a posição do Santa na tabela, enfim. É melhor que a Internet. 

Mas hoje, bastou o senhor L.D começar a falar, que percebi algo estranho. Era uma mistura de gagueira, comum ao senhor I.P, com algo fanho. Não tenho amigos fanhos, mas sei como é.

“Tás roendo um Pequi a essa hora da manhã?”, perguntei.

“Não, é que  ordi a íngua ontem. Passei o  egundo empo todo angrando”, respondeu.

Deu para entender? Mordeu a língua e passou o segundo tempo todo sangrando.

Fui juntando as letras que ele comia, perdão, que ele não conseguia pronunciar, para entender as frases.

Às duras penas, ele contou sua resenha. Na arquibancada, encontrou um grupo de corais de bom papo. Aqueles sujeitos que entendem de futebol, vêem o que a gente não vê, sabem de táticas, o nome de todos os jogadores, peso, altura, tamanho do sapato, esse pessoal que não tem vocação para a vaia, que simplesmente ama o Santa Cruz. Ficou Ao lado deles. 

“A urma era tão oa, que nem desci para omprar cerveja”, disse.

Então, no início do segundo tempo, o amigo L.D soltou um grito de quase gol tão forte, que mordeu a língua. Ele não disse o tamanho da mordida em si próprio, mas o fato é que começou a sangrar. Chegou a olhar duas ou três vezes para a ambulância, mas ficaria chato. No dia seguinte, poderia sair nos jornais uma foto sua, com uma manchete nada simpática:

“Torcedor da Cobra Coral morde a língua, sangra e vai direto para a Restauração”.

Poderiam dizer que ele estava falando mal do Mais Querido, que provou do veneno, essas coisas.

Mas não. Nosso herói da arquibancada de ontem, ainda com a ferida aberta, aguentou firme. Passou 40 minutos à base de sangue, empurrando o time. 

“Essa  itória era  undamental,  ecisiva”.

Não foi ainda ao hospital. Antes, cumpriu seu dever cívico. Me ligou para falar da batalha, do jogo difícil, da tensão, do gol que Néris impediu, dos passes de Grafite. Queria exaltar algo que muita gente esquece – a vitória, os três pontos, a posição na tabela.

“ omos um  ime de  uerreiros!”

“Como?”, perguntei.

Ele pigarreou, cuspiu sangue num balde e completou.

“Somos um time de guerreiros”, disse, visivelmente irritado com minha pouca sensibilidade. 

Por motivos de saúde, nossa conversa durou apenas meia hora. 

Na reta final do campeonato, ninguém vai lembrar se o Santa jogou bem ou mal contra o Figueirense, no Arruda. Vai lembrar que venceu, e arrancou os três pontinhos.

Ontem, tivemos nossa noite de “sangue, suor e lágrimas”. 

O sangue do meu amigo L.D, o suor dos nossos guerreiros em campo, e as lágrimas habituais. 

Porque sempre tem algum torcedor coral que se comove e chora, quando o Santa faz gol.  

 

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